
Língua Negra
unTroglodita
“...Dizem, lá para os lados da Índia, que quando um sábio está pronto para se transformar num santo, ele ainda deve satisfazer o seu último desejo, antes de se tornar um com Deus. Somente assim, ele poderá atingir a iluminação e seguir o seu caminho, sempre online com o Criador...”
Lúcio Eumito, 84, designer, casado, dois filhos, teve a sorte de nascer no mais belo lugar já criado pelo Pai do Nazareno: a cidade do Rio de Janeiro.
A despeito da bela diversidade de sua cidade — serras, subúrbio, interior, rios e matas —, Lúcio era totalmente apaixonado pelo litoral da zona sul, lugar onde foi criado desde a infância. Lá, nas praias que vão do Leme ao pontal do Leblon, este carioca aprendeu a pescar e a contemplar o mais belo pôr-do-sol que existe na Terra: aquele que é visto da pedra do Arpoador, a partir da primavera, de setembro a fevereiro.
Portanto, não era nem um pouco difícil você encontrar Lúcio neste canto encantado de Ipanema, ora pescando, mas sempre contemplando e meditando.
Em seus devaneios e pescarias no cair da tarde, Lúcio sentia falta do passado, além de uma enorme saudade do amanhã. Mas falta do quê? De um Rio e de uma beleza que não mais existiam; que apenas persistiam em sua memória e em seu coração. Nestes momentos, ele recordava-se, quase como um obsessão, da época em que o seu pai largava sua mão infantil e o deixava correr pelas ruas de Ipanema, todas cobertas com folhas carmim, caídas das amendoeiras. Estas lembranças de outono-inverno, e muitas outras, emergiam constantemente durante suas pescarias. Sabiás, bem-te-vis, lacerdinhas (que seu pai tanto tirava de seus olhos), águas limpas, segurança, eram memórias de um tempo em que o Rio e toda zona sul tinham não só beleza, mas também encanto.
Mas um dia..., tudo isso chegou a um ponto máximo! A tensão era demais. Para relaxar de toda esta sufocante lembrança, Lúcio foi dar um mergulho no Arpoador, quando aconteceu algo que ele não via há no mínimo uns sessenta anos. Durante o mergulho, Lúcio foi coberto por um cardume de galhudos que saltaram do mar, como que voando, as centenas. Durante sua infância, Lúcio tinha aprendido que este era o sinal de que o dia seria de ótima pescaria. Mas a realidade é que nos tempos de hoje, ele fica com a bunda dormente de tanto esperar sentado na pedra algo bom no anzol.
Lúcio revoltou-se! Decidiu que só sairia da pedra do Arpoador quando Deus se apresentasse e conversasse sobre tudo aquilo, pois não se conformava com a extinção de tanta beleza.
A noite ainda não tinha chegado, e nada de Deus aparecer. Mas Lúcio não tinha pressa. No entanto, após horas a fio olhando para o lugar onde o Sol se põe, Lúcio disse, quase desistin-do, mas com muita sinceridade:
— Deus, eu não tenho mais ambição na vida! Tenho e consegui tudo o que quis. Acho que a minha única vontade ou desejo é saber de sua própria boca o porquê deste abandono. Você fez o mais difícil, criou o Rio, mas parece não saber o que está acontecendo com ele.
Foi neste momento mágico, de quase desistência, que Lúcio ouviu, bem alto, o canto de uma maritaca que foi se aproximando, aproximando, até que pousou em seu ombro direito e disse:
— Vamos conversar? Você ficou me olhando durante horas, me viu voando sobre as águas de Ipanema e ficaria ai, sentado em cima de mim, até que eu aparecesse, não?
Tudo bem! Faz tanto tempo, mesmo...
Lúcio achou estranho. É como se Deus não se lembrasse de algo.
— Senhor, quem sou eu pra reclamar da vida, mas gostaria que você simplesmente ficasse aqui comigo, vendo o pôr-do-sol, até ele sumir, só isso.
Deus concordou, e os dois ficaram em silêncio olhando o Sol se pondo, de cima da pedra do Arpoador. Era novembro, o dia estava claro e tão lindo que tornou aquele poente multicolorido.
Os minutos se passavam, o Sol ia se aproximando do horizonte e os dois continuavam em profundo silêncio, fazendo daquele ocaso, um caso insólito.
Somente quando a noite misturou-se com o finalzinho do dia, já sem a presença do Sol na linha do horizonte, que o silêncio foi rompido por Deus que disse, para o espanto de Lúcio:
— “E a coisa mais linda que eu já vi passar!”
— Como?
— Sim, eu sinto e compreendo suas queixas e saudades, mas “o Rio de Janeiro continua lindo”, sabe? Por que o espanto? Esqueceu que criei o mundo e o Rio através da Palavra, o Verbo? Tudo isso é som, é música das esferas; eu adoro música, Lúcio.
Lúcio ficou feliz com a resposta, e preferiu manter o silêncio. Foi quando a sagrada maritaca se metamorfoseou num lindo Oxalá, do qual Lúcio sempre foi devoto. O orixá, então, tocou o peito de Lúcio com a mão direita, dizendo:
— Agora, sois santo no Rio: o santuário que nunca esqueci.
E Deus se foi, transformando-se em maritaca, virando sabiá, que tornou-se bem-te-vi, voando alto, tão alto que pode ver, depois de tanto tempo, sua obra prima: parte do litoral carioca, do Leme até Guaratiba. Viu, também, lagoas, matas e, para sua maior alegria, seu Filho de braços abertos no Corcovado, cheio de luz.
E o Deus alado disse:
— Meu Deus, é demais!
O bem-te-vi sagrado, igualzinho a Lúcio, agora Santo Eumito, sentiu saudade de toda aquela beleza, e não teve como: se transformou num papa-terra e começou a cair de toda aquela altura. Foi caindo, caindo, até que bateu um sudoeste...e fez com que o Deus papa-terra caísse no mar de Copacabana, em frente a uma língua negra. Que azar! Deus sentiu nas escamas a podridão que tinha maculado a sua criação. Metais pesados, coliforme fecais, falta de educação, negligência governamental, o peixe divino se sentiu sufocado, mas deu um jeito de ir para águas limpas. Então, quase sem vida, Deus nadou para as pedras do Arpoador, onde o seu devoto e amante do Rio pescava.
É. Isso mesmo! Santo Eumito — que ironia — acabou fisgando aquele papa-terra divino. Mas se Deus foi pro anzol, o nosso santo designer estava prestes a ir para a cruz.
Já era noite, e Eumito encontrava-se em estado de êxtase após o seu diálogo com Deus. Ele estava tão inebriado de alegria, que após fisgar o peixe resolveu reviver um antigo hábito herdado de seu pai. Ele pegou o papa-terra, retirou as escamas, limpando-o totalmente, para em seguida colocá-lo num pequeno braseiro elétrico. Após alguns minutos, Eumito começou a comer, aos pedaços, o seu peixe, o único daquela noite. Tiro e queda: algum tempo depois, Eumito estava morto e com a sua língua totalmente escura, negra. No entanto, antes que seu corpo fosse encontrado sobre as pedras, a maré subiu a um ponto tal que o mar tocou os seus santos pés. Como numa passagem bíblica, deste dia em diante o mar de toda esta região tor-nou-se limpo e cristalino.
Este duplo sacrifício só ficou registrado mesmo nos anais do anonimato, já que as manchetes dos jornais apenas repetiam o que o governador de então, o fervoroso e inescrupuloso fundamentalista não cansava de falar em suas coletivas:
“...acreditem, minha avó já dizia, se morreu com a língua negra..., certamente era porque sua alma nadava nas águas do desamor e do pecado. Santo ele não deveria ser”.
Que língua, hem?

Nenhum comentário:
Postar um comentário